Quanto mais burro, mais feliz.

Olhando pro cantinho da minha prateleira, vejo quatro livros dos quais gosto bastante. Uma Nova Historia do Tempo (Stephen Hawking), Cenas de um Casamento (Ingmar Bergman), O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde) e Admiravel Mundo Novo (Aldous Huxley). Decido escrever sobre aquele que mudou o meu modo de pensar, fato que aconteceu comigo duas vezes. A primeira, quando li A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e a segunda, quando li Admiravel Mundo Novo.
Admirável Mundo Novo (Brave New World) é um livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 que narra uma antevisão de um futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas no qual o domínio quase integral das técnicas e do saber científico produz uma sociedade totalitária e desumana. A sociedade desse futuro criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. Onde os conceitos de família, sentimentos, espiritualidade, velhice e outros se tornam valores ultrapassados.
Admiravel Mundo Novo é um espelho da humanidade. É uma alegoria a nossa sociedade contemporânea, na qual as pessoas são submetidas a um processo de aprendizado sutil (hipnopédia) e alienante através da mídia. A mídia nos proporciona a fragmentação da informação e com isso perde-se o sentido do real conhecimento e saber. Por meio das propagandas, novelas e filmes, somos induzidos (sutilmente) a crer na necessidade de consumirmos os produtos de uma indústria que não para nunca de forjar novas bugigangas tecnológicas. Carros, celulares, roupas, todos os dias somos acometidos por essa imensidão de parafernálias as quais inconscientemente acreditamos serem necessárias para nossa vivencia.
Vivemos a busca pela aceitação em uma sociedade desigual e desumana, onde o status é para quem consome – ao invés de para quem participa e produz. O comportamento social, nossa postura ante membros sociáveis, também é moldada pela televisão (caixa de grudar retinas). Não que não há prazer em comprar, ver TV ou ir ao cinema. Mas, antes disto, ressalto os prazeres primordiais dos quais o Homem realmente necessita. Uma sociedade cheia de confortos e prazeres e o Soma, como a de Admirável Mundo Novo, seduz a todos. Mas deveria espantar quando prega o conformismo e a divisão em castas – ao ponto de uma manipulação genética para a construção de classes e níveis de poder.
Neste sentido me pergunto: a desigualdade que testemunhamos hoje é acidental ou provocada? O fato de algumas pessoas (a grande classe pobre e miserável) não terem acesso à educação não seria algo intencional? Veja, os grandes detentores do capital valem-se da grande demanda de desempregados para oferecerem salários ao seu bel-prazer – e quanto menos se puder pagar por uma mão-de-obra e explora-la ao máximo melhor. Daí vemos um operário trabalhar oito horas por dia e ganhar um salário mínimo por mês. E se reclamar, existem tantos quantos outros iguais a ele para ocupar o seu lugar.
Quanto aos prazeres, que valor tem os que não passam de prazeres superficiais? Que valor tem o sexo sem a afetação de sentimentos? Que dizer então das sensações proporcionadas por uma droga (Soma) que afasta o Homem dele mesmo? A alma humana é incompleta, e não há nada além de um coração livre que possa buscar o que melhor venha a completá-la. A essência do Homem é buscar seus ideais e suas crenças, só assim ele é feliz – quando ele mesmo pode encontrar e compreender o que para ele é liberdade, felicidade e paz. O prazer vem como resultado dessa compreensão, e brota de dentro para fora.
Prefiro uma realidade desditosa à uma ilusão infundada. Hoje, a maior parte da humanidade é como um corpo sem alma. Um bando de zumbis sobrevivendo numa realidade ignóbil. Um bando de desalmados voluntários que venderam suas almas por tão pouco ou nada. Mas ainda prefiro gozar livremente das minhas faculdades intelectuais, das quais não pretendo nunca desfazer-me. Este é o verdadeiro prazer: o pensamento. E não há prazer que se iguale ao de flutuar em meus pensares, e saber que minha existência está alicerçada ante o ego racional e emocional que me define quanto ser humano – a subjetividade humana que nunca deve ser posta de lado.
O soma de inicio é muito atraente, deixando o universo da ficção podemos compara-lo as nossas drogas (maconha, cocaina, etc…) ou mesmo as outras drogas (jornal nacional, novela das oito e jogos de futebol), onde o individuo perde a consciencia de si mesmo e vive em outro mundo, longe de suas angustias e problemas. Mas o que importa de verdade? Ser humano normal e sentir todas as alegrias e tristezas ou ser sintético, mas ser feliz, sempre feliz. É muito facil dizer que prefere ser livre, mas que tipo de liberdade? Sera que somos livres? Será queno fundo queremos ser livres? É facil dizer que sim. A liberdade sempre guiou o homem em suas ações. Orientou seu instinto, sua evolução, suas guerras. Ser livre e fazer o que tem vontade desperta no ser humano felicidade e é por isso que ele busca a liberdade. O projeto moderno de emancipacao do homem para felicidade nunca se efetivou e provavelmente nunca irá se consolidar na pratica, como formulado na modernidade. Até que ponto podemos dizer que é melhor ser feliz (só vivendo experiencias boas) do que ser livre (no sentido de viver todas as experiencias, sejam elas boas ou más)?

Admirável Mundo Novo (1932)

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