Cruelmente Póstumo

É de fato estranho falar de uma pessoa tão genial, que foi aclamada e bloqueada. A história de Sérgio Sampaio, filho de Raul, o maestro da banda de Cachoeiro de Itapemirim, sempre foi levada no “8 ou 80”.

Sérgio Sampaio era locutor de rádio de sua cidade natal, mas queria o mundo. Então que partiu para o Rio de Janeiro, atrás de sua missão. Mas o Rio não lhe deu boas-vindas logo de cara. Viveu na rua, dormindo embaixo de pontes e marquises, sofrendo ao velho estilo cachorro. Foi aí, num dia desses, que seu amigo Odibar o convidou para acompanhá-lo no violão em um teste na CBS.

Chegando na CBS, Odibar e seu amigo foram atendidos por um tal Raul dos Santos Seixas, que ficou paciente a ouvir sem muito gosto as músicas desse desinteressante Odibar. Talvez notando isso, Sampaio aproveitou e tocou uma de suas músicas. Raul pediu mais uma, e ouviu “Coco Verde”, e assim lançou grande parte de seu repertório, impressionando Raulzito. Na hora em
que a dupla foi embora, cochichou no ouvido de Sampaio aquele sincero “volte amanhã”.

E foi assim que Raulzito e Sampaio começaram algumas de suas parcerias, logo quando aquele baiano já queria desistir de sua carreira musical. E foi assim que nasceu o projeto musical conceitual de Raul, que infelizmente parou no primeiro. “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das dez” (clique no título para fazer o download) foi lançado enquanto o diretor da gravadora estava viajando, e logo quando chegou fez questão de tirar o disco de circulação, recolhendo-o das lojas e acorrentando as idéias de Raul.

E foi assim, recém-mudados para a Philips, que Raul produziu o álbum com a mais famosa canção de Sampaio, “Eu quero é botar meu bloco na rua”, de estrondoso sucesso na época. Talvez assustado com a pressão da gravadora para que lançasse outro “eu quero é botar…”, Sampaio queria apenas continuar sua obra, gravando um repertório cheio de músicas com letras difíceis, que não foi lançado. Após gravar um compacto, Sampaio saiu da Philips e decidiu se afastar da cena.

Em 75, gravou um compacto para a Continental, seguido no ano seguinte do LP “Tem Que Acontecer”. O disco teve um considerado sucesso, mas como Sampaio não participou da divulgação as vendas foram prejudicadas. Em 77, gravou um compacto e teve de parar, devido a complicações de saúde. Gravou mais um disco em 83, “Sinceramente”, o de menor sucesso dentre os lançados em sua vida, com destaque para “Doce Melodia”, com participação de seu amigo Luiz Melodia. Sampaio não conseguia voltar à cena principal, refugiado no circuito universitário e underground. Após tocar em um show com Raul Seixas, no mesmo ano, foi convidado pela Baratos Afins para fazer um disco. Chegou a gravar o repertório na casa de sua mãe, de maneira caseira, mas morreu em 94 em uma crise de pancreatite aguda.

Após ouvir as gravações, Zeca Baleiro tomou conta da produção desse disco, seguindo o que achava que Sampaio gostaria. Chamou renomados músicos para contribuirem com arranjos e melodias para o disco, que foi lançado em 2006, com o nome de Cruel, uma verdadeira obra de arte. Disponibilizarei também as gravações originais do homem para o cruel, só voz e violão, perfeitamente tocados.
Sérgio Sampaio
* 13/04/1947 ┼ 15/05/1994
Rating: 4,9 de 5 caixas de cerveja
(Clique nas capas para o download de cada disco!)
Eu quero é botar meu bloco na rua (1973)


1. Lero e leros e boleros
2. Filme de terror
3. Cala a boca Zébedeu

4. Pobre meu pai

5. Labirintos negros

6. Eu sou aquele que disse
7. Viajei de trem
8. Não tenha medo, não (rua Moreira, 65)
9. Dona Maria de Lourdes

10. Odete
11. Eu quero é botar meu bloco na rua
12. Raulzito Seixas

Tem Que Acontecer (1976)

1. Até outro dia
2. Que loucura
3. Cada lugar na sua coisa
4. Cabras pastando
5. Velho bode
6. O que pintar, pintou
7. A luz e a semente
8. Quanto mais
9. Tem que acontecer
10. Quatro paredes
11. Filho do ovo
12. Velho bandido

Sinceramente (1983)



1. Homem de trinta
2. Na captura
3. Tolo fui eu
4. Só para o seu coração
5. Essa tal de mentira
6. Meu filho, minha filha
7. Cabra cega
8. Sinceramente
9. Nem assim
10. Doce melodia (com Luiz Melodia)
11. Faixa seis


Disco Inédito (ou Cru) (1994)

1. Em nome de Deus
2. Roda morta ou reflexões de um executivo

3. Polícia, bandido, cachorro e dentista
4. Brasília
5. Quero encontrar um amor
6. Magia pura
7. Muito além do jardim
8. Destino trabalhador
9. Pavio do destino
10. Uma quase mulher
11. Rosa púrpura de Cubatão
12. Chuva fina
13. Menino João (bônus track ao vivo)
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Cruel (2006)
1. Em nome de Deus
2. Roda morta
3. Polícia, bandido, cachorro e dentista
4. Brasília
5. Magia pura
6. Rosa púrpura de Cubatão
7. Muito além do jardim
8. Real beleza
9. Pavio do destino
10. Quero encontrar um amor
11. Quem é do amor
12. Cruel
13. Uma quase mulher
14. Maiúsculo
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Dica: Para maior afinidade instantânea, puxe primeiro “Cruel”, depois “Eu quero é botar…”, depois o “Tem Que Acontecer”, e o resto a esmo. As melhores músicas dele estão em negrito. Lógico, essa é minha opinião, mas só pra ajudar.
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Outra dica: Em 2000, Rodrigo Moreira lançou a biografia de Sérgio Sampaio “Eu Quero botar Meu Bloco na Rua”, um excelente livro, mas difícil de encontrar.

2 Comentários

Arquivado em Sérgio Sampaio

2 Respostas para “Cruelmente Póstumo

  1. Victor Augusto

    E lá vamos nós agitando o faixa seis!
    Belo post, meu caro Ribas

    já esta na lista!

    abrço.

  2. Hoje todas seriam em negrito..

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